Resenha: “Sangue de Dragão”, de Rachel Hartman

Sangue de Dragão é a continuação (e até onde se sabe, final) da jornada de Seraphina. Gostei tanto desse universo e narrativa criados por Rachel Hartman que não perdi tempo em adquirir a edição seguinte. 

Esse post contém spoilers do primeiro livro! Se ainda não leu, continue por sua conta e risco.

Para ler a resenha do primeiro volume, clique aqui.

Sinopse

A guerra começou… Seraphina se vê envolvida na luta pelo poder entre os dragões rebeldes e a corte humana. O segredo cuidadosamente guardado de sua verdadeira identidade – meio-dragão, meio-humana – agora é uma vantagem para ela. Só Seraphina pode unir o reino de Goredd e, para isso, lançará mão de todos os seus recursos.

Ela percorre o país em busca dos outros meio-dragões, seus irmãos, cujos dons especiais talvez façam a diferença na luta.

Mas reunir sua gente não é tarefa fácil; e, quanto mais ela descobre, desvendando histórias ocultas e mentiras deslavadas, mais percebe que alguém está prejudicando seu plano. Que esperança haverá de promover a paz entre dragões e humanos se um de seus próprios aliados pretender ver ambos os mundos destruídos?

 

Trama

O livro anterior, Seraphina, termina com um final promissor: descoberta uma ardilosa conspiração para acabar com a paz, estoura a guerra entre humanos e dragões. De um lado, temos os dragões rebeldes, que formam o grupo dos Legalistas, e o Velho Ard, que armou o golpe. Quanto aos humanos, o reino apoia os Legalistas, mas nem todas as pessoas estão de acordo com essa posição.

Nesse contexto, a condição mestiça de Seraphina, outrora um fardo, torna-se um grande trunfo. Contudo, embora seja muito inteligente e uma ótima candidata para essa posição de mediadora, não pode lutar sozinha. Assim, ela decide pôr em prática um plano que já passeava em sua mente: encontrar os outros ityasaaris (meio-dragões).

A princípio, não parece tão difícil. Afinal, ela tem seu jardim e visões para guiá-la, bem como a ajuda de seus “irmãos” já encontrados: Abdo, Dama Orkra e Lars. Mas logo Seraphina vai descobrir que reunir essas pessoas na vida real não é tão simples como na sua mente.

Temos ainda Orma, agora um fugitivo procurado pelos Censores. Sua afeição por Seraphina é demasiadamente não-dragontina, por isso, suas memórias precisam ser apagadas.

Ou seja, a premissa é: uma guerra, um dragão ilegal e os demais intrigantes moradores do jardim de Seraphina. Tudo isso contado pelas mãos de Rachel Hartman, que no livro anterior já se mostrou uma ótima contadora de histórias com sua escrita impecável e enredo instigante.

Assim, para essa sequência, minha expectativa é um livro repleto de ação e claro, um fechamento conclusivo e surpreendente. Veremos agora se essas expectativas foram atingidas.

Resenha

 

• Pontos Positivos

 

Conteúdo

É sempre de bom tom que o conteúdo seja bom, afinal de contas, é isso que procuramos ao ler um livro. Porém, destaco mais uma vez esse ponto aqui, pois acho que realmente se sobressai nessa obra. O segundo dá continuidade ao que já havia sido trabalhado no primeiro sem desapontar.

A questão da política continua sendo bem desenvolvida, mas senti agora um enfoque maior em outros aspectos já trabalhados anteriormente: religião intolerância.

E disse Santo Abster: “não tolereis o infiel, a mulher libertina, o homem lúbrico, o dragão e sua prole odiosa…” Esta eu não li até o fim, mas contei, ao todo, cinquenta e três mensagens de intolerância.

Agora que a identidade de Seraphina é revelada para todos, vimos que a reação das pessoas não é tão ruim quanto ela esperava, mas ela é constantemente lembrada que não é “normal”. O repúdio não vem só de forma explícita e direta, muitas vezes é velado.

Tocar flauta era a única coisa que, a meu ver, podia fazer as pessoas verem em mim um ser humano, não um monstro.

Há também uma boa exploração no que concerne à parte psicológica. Nos aproximamos mais ainda de Seraphina e seus sentimentos, bem como de outros personagens.

Outro ponto a se salientar é que obra é bem “fechadinha”, sem pontas soltas. O que tinha ficado pendente é desvendado e alguns assuntos que pensávamos já estarem totalmente esclarecidos, de repente se mostram bem mais profundos do que parecia na superfície. As revelações foram incríveis e fizeram total sentido para mim.

Eu também sempre ponho a culpa em mim primeiro. O mundo nem sempre gira em torno de nós. Às vezes, damos o nosso melhor e tudo sai errado.

Personagens

Além dos já previamente conhecidos, somos apresentados à vários novos personagens que logo aprendemos a amar – ou odiar, o que não é necessariamente ruim -.

Eu estava louca para conhecer os ityasaaris e não me decepcionei. Meus favoritos são o Morcego das Frutas – já introduzido no primeiro livro, mas agora com um destaque muito maior – e Mestre Demolidor. Entretanto, todos são dignos de reconhecimento.

Jannoula era a que eu estava mais curiosa para conhecer, devido ao fato de Seraphina temê-la tanto. Achei a personagem muito bem construída e sua história foi um dos principais motivos que me prenderam ao livro. Os sentimentos de Seraphina em relação a ela foram bem parecidos com os meus. Cumpriu seu papel magnificamente.

De nada adiantava sentir inveja, éramos todos diferentes.

Relacionamentos

Ainda que nesse volume haja menos romance que no predecessor, as relações desenvolvidas não deixam à desejar. O amor de Seraphina por Orma (e ele por ela) me emocionou, bem como a relação com os ityasaaris. A amizade e cumplicidade é outro ponto forte da história.

Outra coisa que achei muito interessante e legal de ver foi sobre as questões sentimentais dos dragões. Até onde a inércia de emoções é intrínseca, instintiva e o quanto é simplesmente sócio-cultural?

Estes olhos humanos me pareciam fracos a princípio. Detectam menos cores e sua resolução é péssima, mas veem coisas que os dragões não podem ver. Enxergam além da superfície.

Diversidade

Na edição anterior, vimos alguns personagens homossexuais. Dessa vez, é um personagem trans que é incluído. Fiquei bem surpresa, pois não me recordo de já ter lido um livro com alguém assim. Na história, essa informação é dada sem muita problematização, pois não se propõe a ensinar e desconstruir. Simplesmente diz que o personagem é assim e pronto.  

Para alguns pode parecer bobagem, que essas pessoas não são excluídas e inclusive, andam aparecendo até demais ultimamente (a exemplo de Orange is the New Black, Sense8, etc). Mas essa representatividade ainda é muito pouca e ainda não é bem vista por muitos. Basta relembrar o caso do novo filme da Bela e a Fera, que sofreu boicote em alguns países por apresentar um personagem gay.

Apesar de não haver um aprofundamento em relação a isso, não torna a inclusão irrelevante.

• Pontos Negativos

 

Ritmo

Ao ler resenhas do primeiro volume, a esmagadora maioria reclamava do ritmo lento do livro, que as coisas demoraram muito para começarem a acontecer. Não senti nada disso, muito pelo contrário. Já em Sangue de Dragão, não posso dizer o mesmo. 

Como já disse, o conteúdo era excelente. O problema é que o andamento é arrastadíssimo. As viagens de Seraphina demoram muito, mas ao encontrar um ityasaari – um dos pontos principais do livro -, mal temos tempo de conhecê-los e ela já vai para a estrada novamente.

Por mais interessante que a história estivesse sendo, não me fazia ler com aquela voracidade. Em compensação, devo dizer que quando o momento – enfim – chegou, li avidamente.

Ação

Em uma história de guerra, é de se esperar que vejamos muita ação. Não foi o que aconteceu. Embora tenha tidos momentos legais nesse sentido, minhas expectativas eram de muito mais. Também senti uma certa perda com o fato do livro ser narrado sob o ponto de vista de Seraphina, pois em vários momentos importantes da guerra ela estava em outro lugar, portanto, não havia como saber o que aconteceu.

Narração

Gosto bastante quando o livro é contado a partir do ponto de vista de um personagem, pois é bem mais fácil se conectar à ele. Entretanto, isso às vezes traz desvantagens. Além do já citado motivo da ação, senti muito a falta de alguns personagens que não estavam presentes com Seraphina. 

Já não é uma questão de narração, mas percebi também muitos erros de digitação. Na maioria eram erros pequenos e podem até passar despercebidos, mas achei um tanto desagradável. Houve até uma hora que personagens tiveram nomes trocados, como em vez de Santo Abster, colocaram Santo Abdo.

Fechamento

Sim, eu coloquei o fechamento do livro como um ponto positivo lá em cima. De fato, o final foi muito bom. Porém, achei um tanto quanto apressado. Foi justamente mais para o final que a história atingiu o ápice, então gostaria que tivesse durado mais. Até porque, uma grande parte foi bem arrastada. Esse pedaço poderia ter sido mais sucinto e dado mais espaço para esse outro momento. Inclusive há um pedaço no final que embora não tenha ficado em aberto, senti falta de ver mais desenvolvido.

Conclusão

Sangue de Dragão, por mais que eu tenha algumas ressalvas, compensa com sobra em outros aspectos. Recomendo muito essa série, além de uma história interessantíssima nos faz refletir muito. Apesar de ter sentido bastante o arrastamento no ritmo de boa parte do livro, o conteúdo é tão bom que compensa. Também gostei muito de Seraphina quanto heroína e fiquei triste ao ter que me despedir dela e dos demais personagens.

Nada era uma coisa só: havia mundos dentro de mundos. Quem caminhava pela linha divisória era abençoado e sobrecarregado por todos eles.

 

 

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