Resenha: “Seraphina – A Garota com Coração de Dragão”, de Rachel Hartman

Seraphina é o romance de estréia da canadense Rachel Hartman. Faz parte de uma série composta por dois volumes, ambos já lançados no Brasil.

Recebeu o Morris Award, principal prêmio anual concedido pela American Library Association, em reconhecimento de autores iniciantes com público jovem adulto.

Já fazia muito tempo que eu paquerava esse livro, pois sempre achei a capa muito bonita. E afinal, não precisa de muito para me fazer querer ler fantasia. Por um motivo ou por outro, acabava que nunca comprava, até que finalmente adquiri o livro.

Vamos conferir se a espera valeu a pena?

Sinopse

Neste livro você vai conhecer Seraphina Dombergh, uma garota de 16 anos com grande talento para a música e que possui um terrível segredo. A história se passa no reino medieval de Goredd, onde seres humanos e dragões convivem em harmonia durante décadas, desde a assinatura do Tratado de Paz. Criaturas extremamente inteligentes que podem assumir a forma humana, os dragões frequentam a corte como embaixadores.

Seraphina se torna assistente do compositor da corte justo quando um membro da família real é assassinado bem ao estilo dos dragões. O clima começa a ficar perigosamente tenso e Seraphina passa a colaborar com as investigações, ao lado do capitão da Guarda da Rainha, o Príncipe Lucian Kiggs. Durante essa jornada que pode destruir a paz entre humanos e dragões, a fachada cuidadosamente construída por Seraphina começa a desmoronar, tornando cada vez mais difícil manter seu segredo, cuja revelação seria catastrófica em sua vida.

 

Trama

A premissa principal é relacionada ao frágil Tratado de Paz entre humanos e dragões, assinado há 40 anos. Portanto, temos uma trama bem política. Os governantes de ambos lados precisam ter bastante jogo de cintura para manter o acordo e a população sob controle.

Nesse universo, os dragões são metódicos, só seguem a lógica e não dão o menor espaço para a emoção. Isso faz com que ajam como seres sem alma, incapazes de sentir amor ou qualquer um dos complexos sentimentos humanos. E é essa característica que faz com que muitas pessoas não consigam confiar na palavra dos dragões . Afinal, o que impede uma criatura sem coração de quebrar sua palavra? Os dragões, por sua vez, também não estão todos satisfeitos com essa negociação. Por quê devem abrir mão de sua liberdade em prol de reles humanos, seres que sequer compreendem?

Nossa sobrevivência não depende de sermos superiores, mas de sermos suficientemente interessantes.

Em meio a tudo isso, há Seraphina, uma jovem que passou a vida toda no anonimato para proteger seu segredo: filha de um humano com uma dragão. Até que seu amor pela música faz com que perca um pouco da prudência ao se candidatar para o cargo de assistente do compositor da corte. A partir daí, ela sem querer acaba se envolvendo bem no meio do fogo cruzado entre as duas raças.

Já se interessou? Você pode ler o primeiro capítulo aqui.

Resenha

 

• Pontos Positivos

 

Escrita

O livro é escrito de uma forma muito bonita, em muitos momentos me senti lendo uma poesia. A autora faz descrições minuciosas, sem muitas delongas e com lindas metáforas. Apesar do uso frequente de palavras pouco usuais, não é difícil de compreender diante do contexto. Você pode aproveitar inclusive para aumentar o vocabulário.

Eu realmente não entendia que carregava a solidão diante de mim numa bandeja e essa música seria a luz que, por detrás, iluminaria meu caminho.

Conteúdo

O teor é bem reflexivo e apesar de ser uma história de fantasia, desenvolve habilmente temas bem cotidianos, como a própria política, fanatismo religioso, racismo e homofobia

Às vezes, é difícil para a verdade violar a fortaleza das nossas crenças. Uma mentira, bem disfarçada, passa com mais facilidade.

A vida de Seraphina, marcada pelo medo de descobrirem quem ela é de verdade, nos dá uma boa visão do que é se sentir diferente, de que não pertence a um lugar. Ela também é muito solitária, pois não pode se aproximar muito de ninguém.

No início não pensei que ser exposta poderia trazer consequências realmente tão terríveis assim. Contudo, a medida que vamos entendendo o funcionamento da sociedade criada por Rachel Hartman, percebemos a extensão da gravidade da situação. O fato do livro ser escrito sob o ponto de vista da protagonista também contribui muito para entendê-la e sentir empatia. E assim, compartilhamos com Seraphina seu fardo.

Em um dia bom, ele bastava como amigo. Em um dia ruim, deparar-me com sua inadequação era como tropeçar numa escada. Doía, mas eu sentia como se a culpa fosse minha.

Há também na história a inserção de um romance. Apesar de não ser o foco da história, ele é satisfatoriamente desenvolvido e conquistou meu coração. No meio dessa trama repleta de assuntos sérios, traz um pouco de uma bem-vinda leveza.

Mitologia

A forma que os dragões são criados e a mitologia que os envolve é muitíssimo fascinante. Um novo mundo nos é apresentado ao conhecermos sua história, língua, costumes, forma de pensar e muito mais.  A relação dos dragões com emoção é muito interessante e ao longo do livro são feitos vários questionamentos pertinentes a respeito.

As emoções viciam. Elas não têm significado: são a antítese da razão. Voam na direção das moralidade ilógicas, não dragotinas.

Embora os dragões sejam vistos como os monstros pela sua incapacidade de sentir, percebemos que os humanos podem ser muito mais bestiais, justamente por causa das emoções.

Personagens

Os personagens são bem construídos e cativantes, cada qual com uma personalidade bem própria. Sempre procuro livros que tenham personagens femininas fortes e esse não me decepcionou. Seraphina é uma garota muito inteligente, de raciocínio ágil, corajosa e fortes princípios morais. Mas ela não é a única, também temos a princesa Glisselda e várias outras personagens femininas que, por mais que não tenham tanto destaque, são muito mais que simples tapa buracos.

Não se pode voar em duas direções ao mesmo tempo. Não posso pousar entre aqueles que pensam que sou defeituosa.

 

• Pontos Negativos

 

Fluxo de informações

Por mais que tenha um glossário no final para auxiliar, algumas vezes fiquei meio perdida devido à quantidade de termos desconhecidos e precisei voltar um pouco na história para entender completamente. No entanto, entendo que sendo o primeiro livro da série, haja essa necessidade introdutória. Acredito que na continuação não terei mais esse problema.

Ritmo

Mais uma vez relacionado à questão de explicações, há muitos idas e vindas entre passado e presente. Diferente de vários leitores, não achei essas partes desnecessárias ou arrastadas. Pelo contrário, gostei muitíssimo e eram informações que me instigavam a querer saber mais, pois importantes para o desenrolamento do ambiente. Porém, esse vai e vem faz variar muito o ritmo do livro: ora rápido, ora lento e também pode fazer a gente se perder um pouco.

Conclusão

Seraphina é um ótimo livro de fantasia, muito bem escrito e trabalhado. Fui completamente capturada pelo enredo e cativada pelos personagens. Orma rapidamente se tornou meu amorzinho e Seraphina é uma heroína que vale a pena conhecer. Mesmo quem não é muito chegado em fantasia, pode apreciar as reflexões que o livro traz. Já os amantes de mitologia, ficarão deliciados com essa versão dos dragões.

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14 Comentários

  1. Olá, tudo bem? Não conhecia o livro, mas pela proposta parece ser bem interessante. Gostei bastante da forma como você fez a resenha, enumerando diversos aspectos da obra. Muitas vezes numa resenha as pessoas sentem receio de expor pontos negativos, porém eles são igualmente importantes, concorda? Parabéns! Beijos, Érika ^.^

  2. Ótima resenha! Acho que você leva muito jeito pra isso. Me deu vontade de ler depois que eu conseguir terminar de ler a saga Game of Thrones algum dia.

  3. A sua resenha me deixou com muita vontade de ler esse livro! Eu adoro fantasia é o meu gênero literário favorito e depois de ver tantos pontos positivos nessa história tenho certeza que é aquele tipo de livro que vai me prender! E a capa é realmente linda!
    Beijos!
    Colorindo Nuvens

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